Entrevista

28 03 2008
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Gideon Rosa | “Eu compreendo que é menos pão e mais circo e que a imprensa vai atrás”

Nascido no sul da Bahia (Itabuna), Gideon Rosa entrou para o teatro profissional em 7 de outubro de 1979, no palco do Teatro Castro Alves, com a peça “Apesar de Tudo, a Terra se Move”, dirigido de Paulo Dourado e, naquele mesmo mês, ganhava seu primeiro contrato para integrar o elenco da quarta versão de “O Bonequeiro Vitalino”. De lá para cá, são mais de 50 peças teatro, alguns filmes (Central do Brasil, Mulheres do Brasil, Tieta, dentre outros) e incursões esporádicas pela teledramaturgia (Marcas da Paixão, na TV Record, O Compadre de Ogum, na TV Globo). Durante vários anos, desenvolveu paralelamente a profissão de jornalista, cujo exercício diário abandonou em 1995 para dedicar-se somente ao teatro.

Em dezembro de 2003 trabalhou com a empresa norte-americana Swen Enternaiment, especializada em filmes para a tevê no filme “The Snake King”, dirigido por Alan Goldstein. É mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia.

Premiado algumas vezes, Gideon é ator da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, onde também coordena um ciclo anual de leituras dramáticas. Tem trabalhado com os mais diversos autores brasileiros e estrangeiros, pertencentes a várias escolas.

Veja a entrevista

ENTREVISTA COM GIDEON ROSA 

Igor Leonardo - Você tem uma vasta experiência como ator e jornalista. Diante desse fato, como você vê, hoje, a relação entre mídia e cultura?
Gideon – Essa é uma questão muito complexa  porque ela pode ser respondida em vários níveis. Vou preferir ficar com o conceito amplo de cultura em detrimento de um outro que se confunde com animação cultural. Acho que a relação com a cultura é problemática porque a cultura é um processo difuso e lento, pouco visível, mensurável, misturado pela população e, com esse conceito a mídia se envolve pouco, quem mais se envolve são os organismos educativas, os veículos institucionais, aqueles que estão livres da lógica de mercado, mas aí, o público também não se interessa por esse tema e deixa que esses veículos falem para quase ninguém. Em se tratando da animação cultural, a mídia é extremamente fascinada por esse aspecto e oferece amplo espaço para sua cobertura quase que especulativa. Ela cobre o jogo de domingo, faz passeata/campanha para devolução do time do Bahia, o comentário de futebol na mídia tem mais importância várias vezes durante o dia do que qualquer outro assunto nacional – e eu estou falando assim porque o futebol também é cultura – então, a mídia é movida pelo que pode interessar a milhares. Em resumo, a mídia só se interessa pela cultura quando um determinado aspecto pode interessar a muitos, quando o público é restrito, ela vira as coisas. Nós vivemos um verdadeiro nivelamento por baixo e a mídia é muito responsável por isso.
 
IL – Diante da sua resposta anterior, você poderia fazer um rápido paralelo entre a relação mídia X cultura de hoje e esta mesma relação em décadas passadas, em especial quando você começou sua carreira jornalística e artística?
G – Vou ser direto porque tenho medo de ser saudosista. Quando eu tinha 16 anos, eu lia grossos cadernos dedicados a assuntos da cultura nos maiores jornais do país, Folha, Estadão, e, principalmente o Jornal do Brasil. Eram escritos por intelectuais brilhantes, especialistas das mais diversas áreas. Dos anos 70 pra cá, esses cadernos foram afinando, afinando até o desaparecimento total. Não sobrou nada além da cobertura medíocre, da ausência de opinião.
 
IL – Alguns filmes, de algum tempo para cá, têm colocado, nas suas narrativas, a mídia como uma grande vilã, a exemplo de “O quarto poder”, de Costa-Gravas. Você assistiu este filme? E, mesmo que não, qual a sua opinião a respeito dessas recentes produções que seguem a tendência de vilanizar a mídia?
G – Não vi o filme. A imprensa como “o quarto poder” é um conceito muito arraigado. Talvez seja mesmo. Eu não acho que a imprensa seja vilã, não é isso, é que a imprensa vive a lógica de mercado do sistema neoliberal. As coisas mudam, “evoluem” num certo sentido, as empresas precisam ser superavitárias financeiramente. Então eu compreendo que é menos pão e mais circo e que a imprensa vai atrás, a mídia de um modo geral. Não penso que isso seja um erro, além do mais, se bem observado, existem muitos veículos preocupados com esses aspectos, profissionais honestíssimos que se preocupam diariamente em dar o melhor de si para informar com precisão, para opinar com justiça e propriedade. O problema é que isso não vende. O que vende é o sensacionalismo da “Veja”, das tevês comerciais, dentre outros veículos.
 
IL – Atualmente, quais são os pré-requisitos básicos para ue você aceite ou não um trabalho?
G – Não quero ser arrogante, mas minha resposta vai parecer. Primeiro eu preciso me apaixonar pelo tema e se o texto é bem escrito. Depois, eu preciso saber se tenho um papel de protagonista ou um bom antagonista. Isso no teatro. Bobagem eu não quero fazer. No cinema e no vídeo eu sou claramente mais modesto porque não tenho uma carreira assim tão sólida como no teatro.
 
IL – No atual momento político em que vive o país, quais são as vantagens e as desvantagens para a cultura, em especial a do Nordeste?
G – O Nordeste é a rabeira. Não tem vantagem alguma estar no Nordeste. Aqui não tem empresas com alto índice de pagamento de impostos para que a gente possa se beneficiar dos programas de renúncia fiscal. Então ficamos à mercê da generosidade dos dirigentes da cultura em cada lugar, das relações subterrâneas. Vantagem só existe para quem mora no eixo Rio-São Paulo para onde vai a verba significativa, para onde vai o dinheiro que importa. O resto é o resto.Ah, minto, o Nordeste tem uma única vantagem: por ser pobre e desprotegido tem a vantagem de fazer uma arte mais genuína.

IL - O que você assiste, hoje, na televisão?
G
 - Eu vejo quase tudo, principalmente notícia. Sou viciado na rádio Bandenews, no canal STV e em seriados de crime (Lei e Ordem, CSI), talvez eu tenha uma mente perversa (risos). Quando tenho amigos atuando em alguma novela, aí eu vejo, acompanho cada capítulo, porque eu gosto de comentar o desempenho com eles. Eu gosto muito de televisão, sou contra aqueles que execram a televisão, acho um instrumento educativo muito interessante, você, como espectador é que tem a obrigação de selecionar ao que você assiste.

IL - Em 2004, você ganhou o Prêmio Braskem de Teatro como melhor ator. O que este prêmio representou para o teatro baiano e, especialmente, para você?
G - Honestamente? Nada. Isso não elevou meu valor de mercado, não me deu mais visibilidade do que a que já tenho. Ganhar um prêmio desses causa um efeito que em uma semana está esquecido. Você está sempre começando. Ninguém conhece você. O teatro não tem público. Um ator de teatro é um ilustre desconhecido. Estou falando de teatro e não de alguma coisa travestida de teatro que faz muito sucesso e caiu no gosto popular do público baiano. Esse “teatro” eu me recuso a fazer. Então, teatro conseqüente como o que eu faço não tem público, não se populariza, não fica conhecido. Não existe muito investimento, ninguém quer patrocinar mesmo que você tenha vários prêmios, como eu tenho. O Braskem de 2005 (ano 2004) foi apenas mais um prêmio que eu agradeço muito porque foi pago em dinheiro e isso me ajudou a continuar sonhando com o teatro. É como se eu tivesse recebido um cachê justo. Fiquei muito feliz.

IL – A peça “Mestre Haroldo… e os meninos” segue uma linha de espetáculo não muito comum, hoje, no teatro baiano: duas horas de duração, texto bastante dramático, sem efeitos audiovisuais e praticamente sem sonoplastia. Como está sendo a aceitação pelo público deste espetáculo? E você, enquanto ator, o que este projeto está representando?
G
 - Como eu disse antes. Eu me orgulho de dizer que eu faço teatro. Teatro é uma arte anacrônica, artesanal, não se pode fazer outra forma. Toda vez que se faz teatro investindo em outros recursos (efeitos, certas pirotecnias) eu acho que o diretor está querendo esconder alguma coisa, o essencial: que é o ator, a alma do teatro, o texto, o seu material primário. Eu não acredito em teatro que desvia a atenção do público do que realmente interessa. Nós temos um público pequeno, mas já sabíamos disso desde o primeiro instante. É um espetáculo raro mesmo, mas o público que tem ido ao teatro vai às lágrimas. A cada dia, enquanto a peça corre, escutamos o choramingar das pessoas com a trajetória das personagens. É uma peça que tem um efeito extraordinário sobre a recepção. Estou plenamente recompensado. O público se diverte um pouco, mas sai do teatro pensando. Essa é a função do teatro: divertir e fazer pensar também. Deus me livre de um dia um público sair de uma peça minha e alguém perguntar: “Sobre o que era a peça?” E a pessoa responder: “Eu não sei sobre o que era peça. Só sei que eu ri muito”. Aí eu deixo de fazer teatro. O mundo já tem estupidez demais, muito Bahêea para alienar. Eu, não.
 
IL – Você já pensou, em algum momento, em deixar de atuar e viver somente como público? Por quê?
G - Não, não. Isso não. Primeiro que eu não planejei fazer teatro na vida. Eu pensei em ser jornalista e advogado. Foi por acaso, felizmente. Agradeço a um grande amigo de infância, o ator e poeta Ramon Vane, meu descobridor. Público eu sou sempre, jamais deixarei de ser público, adoro ser público, mas só deixarei o palco quando não puder mais me manter em pé diante do meu público. Não há sensação mais divina.


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